Junio Fabiano dos Santos
Médico veterinário e analista técnico
Castrolanda: Novos Enfoques na sanidade e manejo de bovinos (Parte 2)Novos Enfoques na sanidade e manejo de bovinos (Parte 2)
Por Junio Fabiano dos Santos

Caros, conforme o artigo anterior o prin­cipal objetivo deste artigo é comparti­lhar as informações relevantes sobre a sanidade da glândula mamária apre­sentada pela Pamela Ruegg no 15º No­vos enfoques na produção e reprodu­ção de bovinos

Monitoramento da qualidade do leite e desempenho da ordenha

As perdas econômicas por mastite po­dem ser muito além dos descontos pra­ticados na indústria leiteira. É sabido que a mastite reduz a produção de lei­te, aumenta a quantidade de leite des­cartado, eleva a taxa de descarte do rebanho e pode afetar negativamente o desempenho reprodutivo do rebanho. Considerado a doença de maior impac­to econômico nas fazendas leiteiras.

Devido a sua importância, a pesquisa­dora defende que não existe nenhu­ma prática única de manejo capaz de melhorar a qualidade do leite de uma propriedade leiteira. É necessário um programa de qualidade de leite especí­fico a cada propriedade, desenvolvido por técnicos, principalmente o médico veterinário responsável da fazenda. Em Wisconsin nos Estados Unidos, apenas 24% das propriedades possuem pro­grama de qualidade de leite monitora­do por veterinários, o tempo dedicado do veterinário a orientações sobre qua­lidade de leite é marginal, menos que 10%. Acredito que nossa região não é diferente a realidade americana, o en­volvimento de veterinários na elabora­ção de programas de qualidade de leite é incipiente e poucos indicadores são avaliados para monitoramento da qua­lidade do leite.

O plano de seis ações mais difundido no mundo sobre qualidade do leite e prevenção de mastite por agentes con­tagiosos são: desinfecção dos tetos an­tes da ordenha (pré-dipping), desinfec­ção após a ordenha (pós-dipping), uso de antibióticos intramamário na seca­gem, tratamento adequado dos casos clínicos, descarte das vacas com masti­te crônica e manutenção freqüente nos equipamentos de ordenha. Entretanto, nem sempre é suficiente para que o produtor atinja bons desempenhos na qualidade do leite e na prevenção de mastites.

Muitas fazendas leiteiras têm proble­mas de qualidade de leite, principal­mente aumento na contagem de cé­lulas somáticas (CCS/ml). Portanto, é necessário estabelecer um plano de qualidade de leite. Para isto precisamos monitorar indicadores de qualidade do leite e de mastite. Trataremos dos prin­cipais indicadores de mastite, núme­ros, metas e informações que muitas vezes estão disponíveis ao produtor na própria fazenda, mas não é mensura­do. O exemplo mais clássico da falta de ação nas fazendas é o controle leiteiro e análises de CCS individual por vaca realizado mensalmente, o número é informado, mas nenhum indicador é ge­rado e nenhuma ação é tomada. O que medido é possível de ser comparado e de estabelecer metas. As metas devem ser atingíveis e são diferentes entre as fazendas, mas possuir referência do ideal ou aceitável pode ser caminho ini­cial para posicionar a nossa fazenda no aspecto qualidade de leite e controle de mastites (Tabelas 1, 2 e 3).

O sucesso de um programa de controle de mastite depende da eficácia na de­tecção, correto tratamento dos casos clínicos e da implementação de práti­cas preventivas que diminuam a expo­sição à patógenos causadores da mas­tite. Além de estabelecer metas, ações, datas e responsabilidades, reuniões re­gulares com as pessoas envolvidas e o gerenciamento das informações sobre qualidade do leite.

Monitoramento da mastite clínica: A mastite clínica é definida pela presen­ça de leite anormal detectada pelo tes­te da caneca antes da ordenha. A defini­ção do que é o caso de mastite deve ser simples e de fácil compreensão pelos ordenhadores. Todos os ordenhadores precisam ter o mesmo entendimento. A classificação por escore de 3 pontos por gravidade dos sinais clínicos é for­ma prática de monitoramento. Grau 1 (leve): Somente leite anormal com pre­sença de grumos, Grau 2 (moderado): leite anormal com presença inchaço no úbere e Grau 3 (Severo): leite anormal principalmente aquoso com ou sem presença de sangue, com úbere incha­do, vaca doente, desidratada e com fe­bre. A (tabela 1) apresenta resultados de várias pesquisas quanto maior a in­cidência de agentes ambientais, maior a gravidade dos sintomas clínicos.

É necessário programar uma planilha de campo que o funcionário anote os casos de mastites, início, grau de se­veridade, medicação utilizada, tempo de tratamento. Estas informações são uteis ao veterinário para avaliar eficá­cia terapêutica e avaliar a tendência epidemiológica, origem dos agentes causadores da mastite. Para se consi­derar um novo caso de mastite numa mesma vaca é necessário, 14 a 21 dias de intervalo. As metas sugeridas para o número de casos clínicos estão na tabela 2.

Algumas perguntas devem ser res­pondidas: Qual é a incidência de casos novos de mastite clínica? Qual é a pro­porção de casos graves (grau 3)? Qual a bactéria mais isolada nas culturas dos casos clínicos? Quais são os protocolos de tratamento? Quantos dias o leite é descartado durante o tratamento? Quantos casos da vaca não responder ao tratamento e necessário mudar o antibiótico? Quantas vacas apresen­tam recidiva após o tratamento? Qual porcentagem de vacas que apresentam quartos perdidos? Qual porcentagem de vacas que morrem ou são descarta­das por mastite?

O objetivo é reduzir os casos clínicos de mastite promovendo melhoria do sistema imune através de uma dieta balanceada, principalmente selênio e vitamina E, e reduzir o desafio ambien­tal exposição ao patógeno, através de manejo de camas, rodízio de piquetes, avaliação da limpeza dos úberes são medidas profiláticas que ajudam a pre­venir a mastite clínica.

Monitoramento de mastite subclí­nica: É possível controlar mastite sub­clínica conhecendo a prevalência: Nú­mero de vacas acometidas com CCS > 200.000/ml ou escore linear >4 sobre o número total de vacas em lactação num dado momento e a incidência: nú­mero de casos novos, vacas que apre­sentaram CCS >200.000/ml ou escore linear >4 pela primeira vez durante esta lactação (Tabela -3). Os números suge­ridos são extremamente desafiadores para os padrões brasileiros, lembre-se que o faixa de CCS> 200.000/ml é um padrão para vacas holandesas de alta produção. A baixa produção pode ele­var CCS, sem que haja contaminação bacteriana, simplesmente por efeito de concentração.

Alguns questionamentos devem ser le­vantados. Qual a incidência de mastite subclínica? Qual a prevalência de mas­tite subclínica? Quais as bactérias mais isoladas na cultura? Qual a proporção de casos de mastite subclínica que se tornam crônicos, persistem por mais de 2 meses? Qual a proporção de va­cas que apresentam mastite subclínica no primeiro e no último controle leiteiro durante a lactação? Qual a prevalência da mastite subclínica por dias em leite e ordem de parto? Os dados que res­pondem estes questionamentos estão no controle leiteiro da qualidade de leite APCBRH. Vacas que apresentam mastite no primeiro controle leiteiro podem ser indicativas de agentes am­bientais, condições do piquete de vaca seca, higiene e limpeza de úbere. Quan­do se suspeita de mastite contagiosa, deve-se investigar a transmissão de patógenos durante a ordenha e avaliar a eficácia dos dippings, toalhas conta­minadas, não utilização de luvas, etc.

Mensuração da qualidade bacte­riológica do leite no tanque de ex­pansão: É o principal fator de bonifica­ção do leite ao produtor atualmente. A quantidade unidade formadoras de co­lônia no leite de microrganismos (UFC/ ml) advém de bactérias ambientais durante a ordenha, má higienização de tetos e equipamentos, má acondiciona­mento do leite, falhas no resfriamento ou através de microrganismos que es­tão dentre o úbere causando mastite, principalmente o S. agalactiae. A meta sugerida <10.000 UFC/ml pelo método de contagem padrão de placas.

Análise microbiológica do leite no tanque de expansão: É a primeira etapa para o desenvolvimento de um programa de qualidade do leite, utiliza­do para conhecer o perfil microbiológi­co dos agentes causadores de mastite no rebanho. O intervalo entre amostra­gens, número de coletas não são pa­dronizados. O importante é comparar resultados dentro do mesmo laborató­rio que utiliza os mesmos critérios de diluição do leite. A interpretação pode ser complicada, pois nem todo o leite da fazenda está no tanque. Mas, a cul­tura do tanque é muito útil para iden­tificar rebanhos que tenham infecções subclínicas por patógenos de mastite contagiosa como S. aureus, Mycoplas­ma bovis e S. agalactiae. A alta con­tagem de S. não agalactiae podem indicar falhas no manejo pré ordenha, principalmente pré-dipping e sujidade dos úberes e tetos, pois são agentes de ambiente. O ideal é coleta de cinco amostras sucessivas do leite por cinco dias, devem ser mantidas congeladas. A ocorrência de Staphylococcus não coagulase (CNS) no tanque por ser um indicativo da falhas no pré-dipping, ma­nejo de camas e secagem efetiva dos tetos antes da ordenha.

Gerenciamento do processo de or­denha: Sugere o acompanhamento da rotina de ordenha, sanitização consis­tente dos tetos, colocação adequada das teteiras, rotina de ordenha, tempo de ação mínima do dipping, limpeza e sanitização do equipamento e ma­nutenção e checagem sistemática do equipamento de ordenha. Este último item talvez seja setor mais frágil na nossa região. As empresas terceiras muitas vezes não possuem uma siste­mática de trabalho preventivo ou dis­põem de equipamentos para aferição do real funcionamento do equipamento de ordenha, há protocolos pré-estabele­cidos pela NMC (2007). Quando se co­meça avaliar o funcionamento de uma ordenhadeira, os indicadores chaves para um bom desempenho são vácuo médio no copo do coletor, flutuação má­xima de vácuo no copo coletor, reserva de vácuo e funcionamento correto dos pulsadores garantindo uma fase de massagem ideal no ciclo de pulsação.

Boas práticas de manejo de orde­nha podem reduzir e controlar a mastite como: a) desinfecção dos te­tos antes da ordenha. A imersão dos tetos com produtos específicos podem reduzir a carga bacteriana no leite até cinco e seis vezes mais que outras prá­ticas de manejo. b) Exame dos primei­ros jatos garante a detecção de vacas com mastite clínica com leite anormal, facilita a ejeção do leite. Devem-se desprezar os 2 a 3 primeiros jatos. c) Secagem das tetas é necessário para garantir a correta higienização antes da colocação das teteiras, reduz a car­ga bacteriana nas pontas dos tetos. d) Tempo de preparo até a colocação das teteiras ou prep-lag-time é de 45 a 90 segundos. e) Manejo das vacas após a ordenha: imersão dos tetos com produtos desinfetantes matam as bac­térias presentes na pele do teto, atua protegendo a pele do teto hidratando a superfície dos tetos pela ação dos pro­dutos cosméticos, emolientes. A super­fície do teto deve ser coberta completa­mente pelo produto e fornecer água e alimentos frescos após a ordenha pode ser uma estratégia para manter a vaca em pé, até que os esfíncteres do teto se fechem completamente diminuindo o risco de mastite.

Os produtores devem ser encorajar e buscar indicadores que possam direcio­nar a situação da saúde da mama de suas vacas. Estabelecer metas, motivar e treinar a sua equipe de ordenha. Os veterinários que assistem os rebanhos devem se envolver efetivamente com o programa de qualidade de melhoria contínua, pois há mudança nos pató­genos, nos equipamentos de ordenha, nos sistemas de alojamentos e nas expectativas da indústria e dos consu­midores. O desenvolvimento de bons programas de qualidade do leite é es­sencial para prevenir a mastite, me­lhorar a qualidade do leite, promover o bem estar animal, a lucratividade da fazenda e garantir a produção de um alimento saudável.




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