Caros, conforme o artigo anterior o principal objetivo deste artigo é compartilhar as informações relevantes sobre a sanidade da glândula mamária apresentada pela Pamela Ruegg no 15º Novos enfoques na produção e reprodução de bovinos
Monitoramento da qualidade do leite e desempenho da ordenha
As perdas econômicas por mastite podem ser muito além dos descontos praticados na indústria leiteira. É sabido que a mastite reduz a produção de leite, aumenta a quantidade de leite descartado, eleva a taxa de descarte do rebanho e pode afetar negativamente o desempenho reprodutivo do rebanho. Considerado a doença de maior impacto econômico nas fazendas leiteiras.
Devido a sua importância, a pesquisadora defende que não existe nenhuma prática única de manejo capaz de melhorar a qualidade do leite de uma propriedade leiteira. É necessário um programa de qualidade de leite específico a cada propriedade, desenvolvido por técnicos, principalmente o médico veterinário responsável da fazenda. Em Wisconsin nos Estados Unidos, apenas 24% das propriedades possuem programa de qualidade de leite monitorado por veterinários, o tempo dedicado do veterinário a orientações sobre qualidade de leite é marginal, menos que 10%. Acredito que nossa região não é diferente a realidade americana, o envolvimento de veterinários na elaboração de programas de qualidade de leite é incipiente e poucos indicadores são avaliados para monitoramento da qualidade do leite.
O plano de seis ações mais difundido no mundo sobre qualidade do leite e prevenção de mastite por agentes contagiosos são: desinfecção dos tetos antes da ordenha (pré-dipping), desinfecção após a ordenha (pós-dipping), uso de antibióticos intramamário na secagem, tratamento adequado dos casos clínicos, descarte das vacas com mastite crônica e manutenção freqüente nos equipamentos de ordenha. Entretanto, nem sempre é suficiente para que o produtor atinja bons desempenhos na qualidade do leite e na prevenção de mastites.
Muitas fazendas leiteiras têm problemas de qualidade de leite, principalmente aumento na contagem de células somáticas (CCS/ml). Portanto, é necessário estabelecer um plano de qualidade de leite. Para isto precisamos monitorar indicadores de qualidade do leite e de mastite. Trataremos dos principais indicadores de mastite, números, metas e informações que muitas vezes estão disponíveis ao produtor na própria fazenda, mas não é mensurado. O exemplo mais clássico da falta de ação nas fazendas é o controle leiteiro e análises de CCS individual por vaca realizado mensalmente, o número é informado, mas nenhum indicador é gerado e nenhuma ação é tomada. O que medido é possível de ser comparado e de estabelecer metas. As metas devem ser atingíveis e são diferentes entre as fazendas, mas possuir referência do ideal ou aceitável pode ser caminho inicial para posicionar a nossa fazenda no aspecto qualidade de leite e controle de mastites (Tabelas 1, 2 e 3).
O sucesso de um programa de controle de mastite depende da eficácia na detecção, correto tratamento dos casos clínicos e da implementação de práticas preventivas que diminuam a exposição à patógenos causadores da mastite. Além de estabelecer metas, ações, datas e responsabilidades, reuniões regulares com as pessoas envolvidas e o gerenciamento das informações sobre qualidade do leite.
Monitoramento da mastite clínica: A mastite clínica é definida pela presença de leite anormal detectada pelo teste da caneca antes da ordenha. A definição do que é o caso de mastite deve ser simples e de fácil compreensão pelos ordenhadores. Todos os ordenhadores precisam ter o mesmo entendimento. A classificação por escore de 3 pontos por gravidade dos sinais clínicos é forma prática de monitoramento. Grau 1 (leve): Somente leite anormal com presença de grumos, Grau 2 (moderado): leite anormal com presença inchaço no úbere e Grau 3 (Severo): leite anormal principalmente aquoso com ou sem presença de sangue, com úbere inchado, vaca doente, desidratada e com febre. A (tabela 1) apresenta resultados de várias pesquisas quanto maior a incidência de agentes ambientais, maior a gravidade dos sintomas clínicos.
É necessário programar uma planilha de campo que o funcionário anote os casos de mastites, início, grau de severidade, medicação utilizada, tempo de tratamento. Estas informações são uteis ao veterinário para avaliar eficácia terapêutica e avaliar a tendência epidemiológica, origem dos agentes causadores da mastite. Para se considerar um novo caso de mastite numa mesma vaca é necessário, 14 a 21 dias de intervalo. As metas sugeridas para o número de casos clínicos estão na tabela 2.
Algumas perguntas devem ser respondidas: Qual é a incidência de casos novos de mastite clínica? Qual é a proporção de casos graves (grau 3)? Qual a bactéria mais isolada nas culturas dos casos clínicos? Quais são os protocolos de tratamento? Quantos dias o leite é descartado durante o tratamento? Quantos casos da vaca não responder ao tratamento e necessário mudar o antibiótico? Quantas vacas apresentam recidiva após o tratamento? Qual porcentagem de vacas que apresentam quartos perdidos? Qual porcentagem de vacas que morrem ou são descartadas por mastite?
O objetivo é reduzir os casos clínicos de mastite promovendo melhoria do sistema imune através de uma dieta balanceada, principalmente selênio e vitamina E, e reduzir o desafio ambiental exposição ao patógeno, através de manejo de camas, rodízio de piquetes, avaliação da limpeza dos úberes são medidas profiláticas que ajudam a prevenir a mastite clínica.
Monitoramento de mastite subclínica: É possível controlar mastite subclínica conhecendo a prevalência: Número de vacas acometidas com CCS > 200.000/ml ou escore linear >4 sobre o número total de vacas em lactação num dado momento e a incidência: número de casos novos, vacas que apresentaram CCS >200.000/ml ou escore linear >4 pela primeira vez durante esta lactação (Tabela -3). Os números sugeridos são extremamente desafiadores para os padrões brasileiros, lembre-se que o faixa de CCS> 200.000/ml é um padrão para vacas holandesas de alta produção. A baixa produção pode elevar CCS, sem que haja contaminação bacteriana, simplesmente por efeito de concentração.
Alguns questionamentos devem ser levantados. Qual a incidência de mastite subclínica? Qual a prevalência de mastite subclínica? Quais as bactérias mais isoladas na cultura? Qual a proporção de casos de mastite subclínica que se tornam crônicos, persistem por mais de 2 meses? Qual a proporção de vacas que apresentam mastite subclínica no primeiro e no último controle leiteiro durante a lactação? Qual a prevalência da mastite subclínica por dias em leite e ordem de parto? Os dados que respondem estes questionamentos estão no controle leiteiro da qualidade de leite APCBRH. Vacas que apresentam mastite no primeiro controle leiteiro podem ser indicativas de agentes ambientais, condições do piquete de vaca seca, higiene e limpeza de úbere. Quando se suspeita de mastite contagiosa, deve-se investigar a transmissão de patógenos durante a ordenha e avaliar a eficácia dos dippings, toalhas contaminadas, não utilização de luvas, etc.
Mensuração da qualidade bacteriológica do leite no tanque de expansão: É o principal fator de bonificação do leite ao produtor atualmente. A quantidade unidade formadoras de colônia no leite de microrganismos (UFC/ ml) advém de bactérias ambientais durante a ordenha, má higienização de tetos e equipamentos, má acondicionamento do leite, falhas no resfriamento ou através de microrganismos que estão dentre o úbere causando mastite, principalmente o S. agalactiae. A meta sugerida <10.000 UFC/ml pelo método de contagem padrão de placas.
Análise microbiológica do leite no tanque de expansão: É a primeira etapa para o desenvolvimento de um programa de qualidade do leite, utilizado para conhecer o perfil microbiológico dos agentes causadores de mastite no rebanho. O intervalo entre amostragens, número de coletas não são padronizados. O importante é comparar resultados dentro do mesmo laboratório que utiliza os mesmos critérios de diluição do leite. A interpretação pode ser complicada, pois nem todo o leite da fazenda está no tanque. Mas, a cultura do tanque é muito útil para identificar rebanhos que tenham infecções subclínicas por patógenos de mastite contagiosa como S. aureus, Mycoplasma bovis e S. agalactiae. A alta contagem de S. não agalactiae podem indicar falhas no manejo pré ordenha, principalmente pré-dipping e sujidade dos úberes e tetos, pois são agentes de ambiente. O ideal é coleta de cinco amostras sucessivas do leite por cinco dias, devem ser mantidas congeladas. A ocorrência de Staphylococcus não coagulase (CNS) no tanque por ser um indicativo da falhas no pré-dipping, manejo de camas e secagem efetiva dos tetos antes da ordenha.
Gerenciamento do processo de ordenha: Sugere o acompanhamento da rotina de ordenha, sanitização consistente dos tetos, colocação adequada das teteiras, rotina de ordenha, tempo de ação mínima do dipping, limpeza e sanitização do equipamento e manutenção e checagem sistemática do equipamento de ordenha. Este último item talvez seja setor mais frágil na nossa região. As empresas terceiras muitas vezes não possuem uma sistemática de trabalho preventivo ou dispõem de equipamentos para aferição do real funcionamento do equipamento de ordenha, há protocolos pré-estabelecidos pela NMC (2007). Quando se começa avaliar o funcionamento de uma ordenhadeira, os indicadores chaves para um bom desempenho são vácuo médio no copo do coletor, flutuação máxima de vácuo no copo coletor, reserva de vácuo e funcionamento correto dos pulsadores garantindo uma fase de massagem ideal no ciclo de pulsação.
Boas práticas de manejo de ordenha podem reduzir e controlar a mastite como: a) desinfecção dos tetos antes da ordenha. A imersão dos tetos com produtos específicos podem reduzir a carga bacteriana no leite até cinco e seis vezes mais que outras práticas de manejo. b) Exame dos primeiros jatos garante a detecção de vacas com mastite clínica com leite anormal, facilita a ejeção do leite. Devem-se desprezar os 2 a 3 primeiros jatos. c) Secagem das tetas é necessário para garantir a correta higienização antes da colocação das teteiras, reduz a carga bacteriana nas pontas dos tetos. d) Tempo de preparo até a colocação das teteiras ou prep-lag-time é de 45 a 90 segundos. e) Manejo das vacas após a ordenha: imersão dos tetos com produtos desinfetantes matam as bactérias presentes na pele do teto, atua protegendo a pele do teto hidratando a superfície dos tetos pela ação dos produtos cosméticos, emolientes. A superfície do teto deve ser coberta completamente pelo produto e fornecer água e alimentos frescos após a ordenha pode ser uma estratégia para manter a vaca em pé, até que os esfíncteres do teto se fechem completamente diminuindo o risco de mastite.
Os produtores devem ser encorajar e buscar indicadores que possam direcionar a situação da saúde da mama de suas vacas. Estabelecer metas, motivar e treinar a sua equipe de ordenha. Os veterinários que assistem os rebanhos devem se envolver efetivamente com o programa de qualidade de melhoria contínua, pois há mudança nos patógenos, nos equipamentos de ordenha, nos sistemas de alojamentos e nas expectativas da indústria e dos consumidores. O desenvolvimento de bons programas de qualidade do leite é essencial para prevenir a mastite, melhorar a qualidade do leite, promover o bem estar animal, a lucratividade da fazenda e garantir a produção de um alimento saudável.


