Em Uberlândia-MG foi realizado o décimo quinto curso novos enfoques na produção e reprodução de bovinos, nos dias 17 e 18 de março. O objetivo deste artigo é compartilhar as informações relevantes apresentadas pelos principais pesquisadores sobre a importância da sanidade, nutrição e reprodução.
Influência do manejo e do ambiente na função imune (Matthew Waldron)
As vacas apresentam depressão do sistema imune no período de transição (3 semanas que antecedem o parto e nas 3 semanas pós-parto). O principal hormônio supressor do sistema imune é o cortisol (glicocorticóides) produzido pelo córtex da adrenal, sua função e modular o processo de inflamação. Outros fatores causadores de estresse podem acarretar depressão do sistema imune como stress térmico, manejo, etc.
A função do sistema imune é proteger o animal de agentes invasores causadores de doença (bactéria, vírus, fungo, etc). O animal possui dois tipos de defesa inata e adaptativa. A defesa inata é primeira linha de defesa na proteção do indivíduo, portanto ela é geral e rápida, formada por neutrófilos polimorfonucleares, monócitos e macrofágos. Já a resposta adaptativa ela é especifica, lenta e gera uma memória imunológica. Quando por exemplo, vacinamos um animal desejamos estimular a imunidade adaptativa a partir da exposição de um antígeno específico. É sabido que o cortisol deprime a função dos leucócitos (células de defesa) aumentando o risco de doenças.
Fatores de ambiente podem afetar o stress animal como agrupamento de lotes e a dor. A mudança de lote do animal gera interação e disputa pela hierarquia social e a dor é comum em vacas mancas com problema de cascos que são mais susceptíveis ao surgimento de outras doenças. A nutrição é fundamental para prover todos nutrientes essenciais e manter um ambiente de rúmen saudável. Vacas sem conforto que ficam muito tempo em pé, a freqüência de alimentação é menor acarretando menor consumo de matéria seca ao longo do dia, maior risco de acidose ruminal. A queda no pH do rúmen abaixo de 5,6 pode aumentar a liberação de substância inflamatórias, histaminas e citocinas.
As instalações são uma fonte comum de estresse para bovinos, instalações pouco familiares, troncos de casqueamento, instalações mal projetadas, como sala de ordenha, sala de espera, tamanho de cama, piso e falta de ventilação (ambiência). Outro fator importante é stress térmico causado pelo calor excessivo, e nítido que nos meses mais quentes ocorrem aumento de determinadas doenças infecciosas, exemplo a mastite. Uma explicação seria aumento da temperatura e calor aumenta a carga bacteriana no ambiente e outra possibilidade seria o comprometimento da função imune.
Vacas obesas podem agravar a resposta imune das vacas pós-parto, portanto são mais dispostas à infecção e inflamação. Vacas gordas antes mesmo do parto já começam a mobilizar gordura do tecido adiposo, o consumo de alimento é diminuído o que aumenta liberação de ácidos graxos não esterificados (AGNE) e corpos cetônicos na circulação sanguínea. Vacas gordas possuem maior stress oxidativo, formação de radicais livres comprometendo a função dos leucócitos. Vacas doentes possuem redução na produção de leite seja pelo desvio de nutrientes para o sistema imune e alteração no metabolismo.
Considerações práticas voltada para a imunidade primeiramente assegure que sua vaca esteja sendo alimentada conforme a exigência. Supra a necessidade de minerais e vitaminas conforme a recomendação do nutricionista. Melhore o manejo da alimentação, espaço de cocho, acesso, instalações. Sabemos dos efeitos diretos da nutrição a imunidade, entretanto, há poucas evidencias para embasar recomendações nutricionais para maximizar o sistema imune, sabemos que as deficiências de minerais e vitaminas, principalmente o selênio e vitamina E comprometem a resposta imune. Mas, a nutrição não resolve todos os problemas, o manejo e o ambiente são fundamentais para a saúde da vaca.
Cistos ovarianos: Etiologia, fisiologia (Willian Silvia)
O levantamento feito nas fazendas nos Estados Unidos relata que 15% das vacas apresentam um ou mais cistos ovarianos durante a lactação. O cisto folicular é caracterizado pelo diâmetro superior a 17 mm e persistente no ovário por mais de 10 dias. A principal causa de cistos foliculares é uma falha no eixo-hipotalamico hipofisário localizado no sistema nervoso central (cérebro). O estradiol hormônio responsável pela manifestação de cio desencadeia a liberação de GnRH. O GnRH é produzido pelo hipotálamo e responsável pela liberação do pico de LH que permite a ovulação do folículo dominante. Quanto existe falha na ovulação o folículo continua a crescer formando um cisto. Os folículos podem se tornar císticos quando a concentração de progesterona no sangue é baixa ou intermediária, menor que 1 ng/ml. Algumas vacas podem ser tornar “ninfomaníacas”, apresentam cios de longa duração e com intervalos irregulares.
A principal conseqüência do aparecimento do cisto é o aumento nos dias em abertos (período em que a vaca fica vazia do parto até a concepção). Nos Estados Unidos a ocorrência de cistos aumenta os dias em abertos entre 22 a 64 dias. Doenças reprodutivas, como retenção de placenta, metrite e distocia no parto podem aumentar o aparecimento de cistos.
Doenças metabólicas relacionadas à energia: etiologia, impacto no desempenho do rebanho – Ric Grummer
O fígado gorduroso e a cetose são transtornos metabólicos que resultam nas alterações do metabolismo da vaca de transição. Ocorre quando há uma intensa mobilização de gordura do tecido adiposo próximo ao parto, mediada por hormônios associado ao parto que leva a redução no consumo e aumento da exigência da vaca para suportar uma nova lactação. Esta mobilização eleva os AGNE que no fígado são esterificados formando triglicerídeo. Somente 25% do triglicerídeo presente no fígado são oxidados. O restante precisa ser exportado para outros órgãos através das lipoproteínas de baixa densidade (VLDL) ou parcialmente oxidados formando cetonas ou simplesmente ocorre acumulo de gordura no fígado. Este acúmulo de gordura atrapalha o funcionamento do fígado que tem uma importância vital na síntese de glicose e detoxificação de compostos nitrogenados, como a amônia.
A oxidação do ácido graxo ou a exportação do triglicerídeo no fígado são caminhos benéficos do metabolismo. Para entendermos o impacto da mobilização de gordura de uma vaca no pós-parto pesando 700 kg de peso vivo (PV), seu fígado pesa 1,1 a 1,2% PV, ou seja, 8,4 kg. A mobilização de gordura por dia é de 500 gramas. Se uma vaca perde 1 ECC depois do parto estima-se que haja um acumulo de 5 kg de gordura no fígado. Vacas que tiveram fígado gorduroso têm menor eficiência reprodutiva, menor resposta imune e menor produção de leite.
Os métodos para diagnosticar fígado gorduroso, incluindo enzimas hepáticas no sangue não são confiáveis. As biópsias hepáticas são difíceis de serem feitas na prática. O monitoramento de AGNE devem ser antes de 2 dias do parto. Portanto, o monitoramento mais prático realizado a campo é a mensuração dos corpos cetônicos (Cetose). A cetose acúmulo de corpos cetônicos no sangue que podem apresentar de duas formas clínica e subclínica. A síndrome do fígado gorduroso antecede a cetose.
O monitoramento de cetose subclínica no rebanho séria através da mensuração do betahidroxibutirato (BHBA) no sangue ou urina ou no leite. Coletas de sangue são lentas, caras e trabalhosas. A mensuração na urina é complicada em rebanhos pequenos. O BHBA pode ser medido no primeiro controle leiteiro após o parto o que é mais prático. A relação entre teor de gordura e proteína no leite maior que 1,5 é um indicativo para ocorrência de cetose. O medidor mais prático e preciso seria a coleta de uma gota de sangue para dosar a concentração de BHBA > 1400 µmol/l. A recomendação que amostrem no mínimo de 12 vacas do rebanho entre 5 a 14 dias pós-parto entre 4 a 5 horas após a primeira alimentação, se houver uma prevalência superior a 10% existe um alta ocorrência de cetose.
A forma subclínica tem maior impacto nas perdas econômicas. A prevalência da cetose nos rebanhos leiteiros do Canadá é cerca de 24%. Vacas com cetose subclínica tem uma probabilidade 3,5, 2,8 e 1,5 vezes maior de deslocamento de abomaso, cetose clínica e metrite quando o limiar das concentrações séricas de BHBA eram 960, 960 e 672 µmol/l. Pesquisadores canadenses encontraram uma probabilidade de 1,7 vezes maior chance de altas contagens de células somáticas. Outros trabalhos demonstraram redução na atividade fagocitária de células de defesa quando o BHBA >1400 umol/l aumentando a chance de desenvolver mastite. Perda no leite de 1,0 a 1,4 litros de leite por dia foi associada ao teste positivo de BHBA no leite. Perda de produção estimada durante a lactação de 334 kg de leite.
As perdas ocasionadas pela cetose no Estados Unidos é na ordem de U$ 548,00 dólares por vaca acometida. Outros pesquisadores estimaram que o custo direto da cetose clínica de 232 dólares/caso. Os custos associados foram morte, descarte, serviços veterinários, medicamentos, mão de obra, produção perdida e retardo na concepção.
Estratégias para prevenção do fígado gorduroso e cetose subclínica – Ric Grummer
O ponto importante na prevenção de fígado gorduroso no pós-parto seria a manipulação da dieta no intuito de aumentar a concentração de energia na dieta para compensar a queda de consumo das vacas próximo ao parto que ocorre naturalmente. Uma revisão de 2009 comparando a concentração de energia na dieta baseado no carboidrato não fibroso (CNF) variando de 13 a 45%, média 35%. Dos sete estudos realizados, cinco apresentaram aumento no consumo pré-parto, mas sem efeito no CMS pós-parto, produção de leite. Somente um experimento observou redução significativa na prevalência de fígado gorduroso. Por isto é pouco provável que relação forragem: concentrado das dietas de vacas secas e/ou pré-parto possa afetar a lactação, saúde metabólica e o desempenho reprodutivo.
Outra possibilidade avaliada foi à restrição alimentar no pré-parto. Redução no CMS ou limitação da ingestão de energia líquida resultando em redução nos níveis de AGNE no sangue no pós-parto. Entretanto, não houve efeito positivo na produção de leite no pós-parto. Douglas et al., (2006) encontraram aumento no CMS pós-parto com a restrição alimentar no período seco, redução na % de gordura no fígado e BHBA no sangue. Portanto, dietas com alta fibra no período seco e baixa energia podem ser benéficas a saúde da vaca.
A utilização de aditivos alimentares pode contribuir para redução da síndrome do fígado gorduroso. As principais rotas de atuação dos aditivos são inibição da mobilização da gordura do tecido adiposo e remoção de gordura no fígado pelas lipoproteínas. A monensina sódica utilizada nas rações aumenta a eficiência alimentar, através da relação menor produção de acetato via seleção de bactérias gram-negativas no rúmen. O propionato é o principal precursor de glicose no fígado. A redução de AGNE e BHBA no sangue pela ação da monensina publicada na literatura foi de 7% e 13%, respectivamente. O aumento na eficiência da produção de leite foi de 2,4%.
A utilização de propilenoglicol na forma de drench pode aumentar a insulina e bloquear a mobilização de gordura, entretanto este mecanismo é processo natural da vaca de alta produção se torna insensível naturalmente a insulina para aumentar a disponibilidade de glicose para glândula mamária para produção de leite. O Cromo é mineral considerado não essencial atua potencializando a ação da insulina. Este hormônio permite que as células do tecido muscular e adiposo absorvam a glicose do sangue. Portanto, a insulina é hormônio que inibe a lipólise (mobilização de gordura). Vacas suplementadas com cromo tiveram aumento no CMS e na produção de leite, sem alterar os parâmetros metabólicos, AGNE e BHBA. Os efeitos no aumento da produção de leite podem ocorrer após a suplementação do cromo-metionina, próximo ao pico de lactação.
Outro mecanismo que possa ajudar a vaca seria exportação de gordura no fígado pelo VLDL. Os ruminantes não são eficientes para exportar gordura do fígado. A colina mesma não considerada essencial é precursora de fosfatidilcolina componente das lipoproteínas. A colina presente nos alimentos quando não protegida é praticamente degradável no rúmen, cerca dev 90%. E o fornecimento de colina protegida na alimentação no período de transição pode diminuir a incidência de fígado gorduroso nas vacas. Uma revisão com suplementação de 15 g de colina por dia, seis das dezesseis comparações houve aumento significativo na produção de leite, nenhum experimento houvera queda na produção com a suplementação.
Lima et al., (2007) encontraram redução na incidência de cetose clínica e subclínica com a suplementação de colina, porém a incidência de retenção de placenta, metrite, doenças uterinas e deslocamento de abomaso não foram significativas. Mas, vacas tratadas com colina no pré-parto até os primeiros 80 dias de lactação tiveram menos mastite que o grupo controle. O desempenho reprodutivo após o parto não foi afetada pela suplementação. Em resumo, a suplementação de colina reduz o risco de cetose pós-parto e morbidade em geral, o aumento médio na produção de leite foi de 6% ou 1,5 kg de leite por vaca dia. A suplementação de colina no período de transição pode trazer benefícios a saúde da vaca.