Junio Fabiano dos Santos
Médico veterinário e analista técnico
Castrolanda: Lucro sobre custo alimentar, proposta de novo indicador econômicoLucro sobre custo alimentar, proposta de novo indicador econômico
Por Junio Fabiano dos Santos

O custo alimentar é composto por con­centrados, sais minerais e forragens, representa aproximadamente 50% do custo total da atividade leiteira nas propriedades assistidas pela gestão da Cooperativa Castrolanda. Portanto, o monitoramento do custo de alimenta­ção é item de amplo impacto zootécnico e econômico na atividade leiteira.

No último artigo, abordamos sobre a relação de troca, comportamento dos preços das commodities em 2010, au­mento do custo alimentar no segundo semestre. Para relembrar, a relação de troca é uma medida do poder de compra do produtor de leite, quantos quilogra­mas de ração concentrada ele poderia comprar com a venda de um litro de leite num dado momento.

O problema é que a relação de troca é baseada em dois coeficientes, preço da ração e preço do leite e pode não refletir a rentabilidade da fazenda. Um exem­plo atual é capaz de ilustrar a limitação da relação de troca. O preço do fubá de milho, casca de soja, farelo de soja, B3B18%, B3B18% especial e B3B18% elite entre janeiro de 2010 comparado a janeiro de 2011 tiveram um acréscimo nominal de 20%, 27%, 3%, 15%, 13% e 14%, respectivamente. Mas, a relação de troca para os mesmos ingredientes praticamente se manteve constante ou tiveram uma pequena melhora: 1,8, 1,8, 1,0, 1,5, 1,5, 1,3 em 2011 (Gráfico 1 e 2). Esta manutenção da relação de troca se deu pelo aumento no preço do leite, acréscimo de 21%, em valor nominal R$ 0,131 por litro no mesmo período.

O departamento de agricultura dos Esta­dos Unidos (USDA) utiliza um indicador econômico simples conhecido como milk-feed price ratio, ou simplesmente relação de troca, preço do leite em libras dividido pelo preço em libras da dieta como ferramenta para indicar a rentabi­lidade e a margem de produção. O Milk-feed price ratio = Preço do leite/FV.

O custo alimentar americano representa 40 a 60% do custo total. Considera-se uma dieta padrão com 16% de proteína bruta na MS, composta por 41 libras de feno de alfafa, 8 libras de farelo de soja e 51 libras de milho. A fórmula utiliza­da para determinar o valor do alimen­to (Feed value) em dólares por libra é FV=(51/56) x Preço do milho+ (8/60 ) x Preço da soja + (41/2000) x Preço do feno de alfafa. Os preços são baseados na cotação de Chicago. Os principais in­gredientes da ração são farelo de soja e milho, 83 a 91% do total.

Nos Estados Unidos o preço de leite é definido pela média do país (U$ por li­bra/classe III). O americano considera que se a relação é maior que 3,0, atrati­va para produzir leite, conseqüentemen­te há expansão do rebanho, incentivo a produção. Historicamente, a relação abaixo de 2,0 há redução na margem e aumenta a liquidação de rebanho.

O problema é que esta dieta é muito simplista, não expressa atual realidade das dietas americanas que assim como as nossas incorporam subprodutos na formulação e outras forragens. Outra forma simples seria mensurar a receita sobre custo alimentar (Income over feed costs IOFC) que é um indicador grosseiro de rentabilidade. O IOFC U$/vaca/dia = {Preço do leite (U$ dólares/libra) x mé­dia de produção diária (libras)} – custo alimentar diário das vacas em lactação. Neste caso o custo de alimentação das vacas secas e novilhas não são conside­rados. Pesquisadores da universidade da Pennsylvania compararam a relação de troca (Milk:feed ratio) com a receita sobre o custo alimentar (income over feed costs IOFC) de duas dietas com capacidade de produção de 29,5 litros de leite, uma simples (concentrados a base de fubá de milho e farelo de soja) e uma complexa (mesmos concentrados e subprodutos fibrosos, casca de soja, soja tostada e grãos de destilaria). O co­eficiente de correlação entre a relação de troca com a receita sobre o custo ali­mentar das dietas foi alto, 0,86.
Maximizar a receita sobre o custo ali­mentar é a principal estratégia dos nutricionistas, entretanto, o indicador depende do preço de leite, custo dos ali­mentos e da produção de leite. O ideal é o monitoramento mensal. A receita so­bre custo alimentar é mais sensível que a relação de troca para monitorar os cus­tos alimentares, principalmente quando os preços dos alimentos estão em alta.

Apesar da variação de ingredientes utili­zados nas dietas das vacas leiteiras, há um padrão de dieta para vacas de alta produção na região Castro. As principais forrageiras utilizadas são silagem de milho e pré-secado de azevém. A fração concentrada da dieta é composta por rações comerciais com 18% proteína bruta produzidas pela própria coopera­tiva, composta principalmente de farelo de soja, fubá de milho, minerais e vita­minas. Além das rações, outros subpro­dutos são utilizados como casca de soja, polpa cítrica e caroço de algodão.Como possuímos boas referências de custo de produção de forragens, devido ao trabalho da Fundação ABC e a base das rações são praticamente constantes seria possível calcular o custo alimentar para várias faixas de produções. Primei­ramente, é necessário estabelecer um cenário próximo da realidade média da região. Sugiro que tracemos o seguinte raciocínio, a raça escolhida é holandesa, com 30 litros de média por dia, alimen­tadas com dieta completa duas vezes ao dia, sem inclusão de pasto na dieta. A definição da raça é necessária por causa do peso vivo e a exigência de mantença, potencial de produção, teor de sólidos no leite. Estas variáveis definem a exigência animal em nutrientes. O consumo de matéria seca será predito pela equa­ção do NRC, 2001. O software utilizado para formulação da dieta foi Spartan3. A primeira parte da tabela - 1 define a exigência da vaca, baseado na produção de leite, 30 litros, % gordura 3,50, % pro­teína 3,10 e % lactose 4,85. O peso vivo 646 kg, dias em lactação 150. Os custos das forragens utilizadas na formulação foram baseados nas planilhas de custo da fundação ABC 2010/2011 e os cus­tos dos concentrados baseado no valor de mercado praticado aos associados da Cooperativa Castrolanda no mês de fevereiro de 2011.

Nesta avaliação consideramos a média da composição bromatológica histórica entre os anos de 2000 a 2010 enviadas ao Labnutron. Silagem de milho, 30% MS, 7,9% proteína bruta, 50,6% fibra em detergente neutro (FDN), 67% NDT (Nu­trientes digestíveis totais). Pré-secado de azevém, 40,6% MS, 14,6% proteína bru­ta, 51,3% FDN e 63,0% NDT. Investir na quantidade e qualidade das forragens com alta qualidade nutricional depende de inúmeros fatores como um planeja­mento forrageiro adequado, escolha do híbrido, época ideal de plantio, tratos culturais, momento de colheita, confec­ção da silagem, conservação e boas prá­ticas no descarregamento, acarretando em uma forragem de baixo teor de FDN, alta energia (NDT) que possibilita dimi­nuir a quantidade de grãos na dieta.

A dieta formulada possui 16% proteína bruta na MS, 35,9% FDN na MS e 1,5 Mcal de energia líquida por kg de MS, com 54% de forragem na MS (Tabela-1). Esta dieta possui energia líquida e pro­teína metabolizável permissível para produção de 32,0 e 31,0 litros de leite por dia, respectivamente. Portanto, não existe limitação de nutrientes. O cus­to alimentar por vaca foi de R$ 10,21, custo alimentar por litro de leite produ­zido R$ 0,34 e a receita sobre o custo alimentar R$ 13,59 por vaca. Preço de leite utilizado R$ 0,7934/litro.

A receita sobre o custo alimentar é uma medida grosseira de rentabilida­de (IOFC). Os americanos consideram como meta interessante IOFC superior 6,0 dólares por vaca. Em situações de alto custo alimentar e preços de leite baixo da média histórica a meta seria em torno de 5,00 a 5,5 dólares por vaca. Se considerarmos o dólar comercial R$ 1,66, o nosso lucro sobre o custo ali­mentar predito em dólar seria U$ 8,20, altamente atrativo para produzir leite.

Caso façamos comparações entre fazen­das haverá diferenças na receita sobre custo alimentar, devido ao número de lo­tes de produção, qualidade de forragem, sanidade, dias em leite e potencial ge­nético do rebanho. Outras decisões não relacionadas à composição da dieta po­dem afetar o desempenho dos animais, qualidade da mistura, precisão nas pe­sagens dos ingredientes, avaliação do teor de MS das forragens, estocagem, conservação dos alimentos, manejo e conforto animal. Lembre-se nem sempre a comida mais barata é a mais lucrativa.

Em geral, o ambiente econômico atual é atrativo ao produtor de leite, os preços do leite na região seguem firmes, aumento na demanda mundial por lácteos, preço do leite em pó acima de U$ 4.500,00 a tonelada. Entretanto, as cotações do milho e farelo de soja superam o ano 2010 contribuindo para aumento no custo alimentar. Estratégias alimentares dependem do mercado, mas a diversifi­cação de ingredientes, como a utilização de subprodutos fibrosos pode contribuir para redução no custo alimentar nas fazendas, sem que haja queda no de­sempenho animal. O produtor de leite deve ter cautela quanto ao cenário atual e utilizar indicadores econômicos para avaliar seu negócio sistematicamente.


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