O custo alimentar é composto por concentrados, sais minerais e forragens, representa aproximadamente 50% do custo total da atividade leiteira nas propriedades assistidas pela gestão da Cooperativa Castrolanda. Portanto, o monitoramento do custo de alimentação é item de amplo impacto zootécnico e econômico na atividade leiteira.
No último artigo, abordamos sobre a relação de troca, comportamento dos preços das commodities em 2010, aumento do custo alimentar no segundo semestre. Para relembrar, a relação de troca é uma medida do poder de compra do produtor de leite, quantos quilogramas de ração concentrada ele poderia comprar com a venda de um litro de leite num dado momento.
O problema é que a relação de troca é baseada em dois coeficientes, preço da ração e preço do leite e pode não refletir a rentabilidade da fazenda. Um exemplo atual é capaz de ilustrar a limitação da relação de troca. O preço do fubá de milho, casca de soja, farelo de soja, B3B18%, B3B18% especial e B3B18% elite entre janeiro de 2010 comparado a janeiro de 2011 tiveram um acréscimo nominal de 20%, 27%, 3%, 15%, 13% e 14%, respectivamente. Mas, a relação de troca para os mesmos ingredientes praticamente se manteve constante ou tiveram uma pequena melhora: 1,8, 1,8, 1,0, 1,5, 1,5, 1,3 em 2011 (Gráfico 1 e 2). Esta manutenção da relação de troca se deu pelo aumento no preço do leite, acréscimo de 21%, em valor nominal R$ 0,131 por litro no mesmo período.
O departamento de agricultura dos Estados Unidos (USDA) utiliza um indicador econômico simples conhecido como milk-feed price ratio, ou simplesmente relação de troca, preço do leite em libras dividido pelo preço em libras da dieta como ferramenta para indicar a rentabilidade e a margem de produção. O Milk-feed price ratio = Preço do leite/FV.
O custo alimentar americano representa 40 a 60% do custo total. Considera-se uma dieta padrão com 16% de proteína bruta na MS, composta por 41 libras de feno de alfafa, 8 libras de farelo de soja e 51 libras de milho. A fórmula utilizada para determinar o valor do alimento (Feed value) em dólares por libra é FV=(51/56) x Preço do milho+ (8/60 ) x Preço da soja + (41/2000) x Preço do feno de alfafa. Os preços são baseados na cotação de Chicago. Os principais ingredientes da ração são farelo de soja e milho, 83 a 91% do total.
Nos Estados Unidos o preço de leite é definido pela média do país (U$ por libra/classe III). O americano considera que se a relação é maior que 3,0, atrativa para produzir leite, conseqüentemente há expansão do rebanho, incentivo a produção. Historicamente, a relação abaixo de 2,0 há redução na margem e aumenta a liquidação de rebanho.
O problema é que esta dieta é muito simplista, não expressa atual realidade das dietas americanas que assim como as nossas incorporam subprodutos na formulação e outras forragens. Outra forma simples seria mensurar a receita sobre custo alimentar (Income over feed costs IOFC) que é um indicador grosseiro de rentabilidade. O IOFC U$/vaca/dia = {Preço do leite (U$ dólares/libra) x média de produção diária (libras)} – custo alimentar diário das vacas em lactação. Neste caso o custo de alimentação das vacas secas e novilhas não são considerados. Pesquisadores da universidade da Pennsylvania compararam a relação de troca (Milk:feed ratio) com a receita sobre o custo alimentar (income over feed costs IOFC) de duas dietas com capacidade de produção de 29,5 litros de leite, uma simples (concentrados a base de fubá de milho e farelo de soja) e uma complexa (mesmos concentrados e subprodutos fibrosos, casca de soja, soja tostada e grãos de destilaria). O coeficiente de correlação entre a relação de troca com a receita sobre o custo alimentar das dietas foi alto, 0,86.
Maximizar a receita sobre o custo alimentar é a principal estratégia dos nutricionistas, entretanto, o indicador depende do preço de leite, custo dos alimentos e da produção de leite. O ideal é o monitoramento mensal. A receita sobre custo alimentar é mais sensível que a relação de troca para monitorar os custos alimentares, principalmente quando os preços dos alimentos estão em alta.
Apesar da variação de ingredientes utilizados nas dietas das vacas leiteiras, há um padrão de dieta para vacas de alta produção na região Castro. As principais forrageiras utilizadas são silagem de milho e pré-secado de azevém. A fração concentrada da dieta é composta por rações comerciais com 18% proteína bruta produzidas pela própria cooperativa, composta principalmente de farelo de soja, fubá de milho, minerais e vitaminas. Além das rações, outros subprodutos são utilizados como casca de soja, polpa cítrica e caroço de algodão.Como possuímos boas referências de custo de produção de forragens, devido ao trabalho da Fundação ABC e a base das rações são praticamente constantes seria possível calcular o custo alimentar para várias faixas de produções. Primeiramente, é necessário estabelecer um cenário próximo da realidade média da região. Sugiro que tracemos o seguinte raciocínio, a raça escolhida é holandesa, com 30 litros de média por dia, alimentadas com dieta completa duas vezes ao dia, sem inclusão de pasto na dieta. A definição da raça é necessária por causa do peso vivo e a exigência de mantença, potencial de produção, teor de sólidos no leite. Estas variáveis definem a exigência animal em nutrientes. O consumo de matéria seca será predito pela equação do NRC, 2001. O software utilizado para formulação da dieta foi Spartan3. A primeira parte da tabela - 1 define a exigência da vaca, baseado na produção de leite, 30 litros, % gordura 3,50, % proteína 3,10 e % lactose 4,85. O peso vivo 646 kg, dias em lactação 150. Os custos das forragens utilizadas na formulação foram baseados nas planilhas de custo da fundação ABC 2010/2011 e os custos dos concentrados baseado no valor de mercado praticado aos associados da Cooperativa Castrolanda no mês de fevereiro de 2011.
Nesta avaliação consideramos a média da composição bromatológica histórica entre os anos de 2000 a 2010 enviadas ao Labnutron. Silagem de milho, 30% MS, 7,9% proteína bruta, 50,6% fibra em detergente neutro (FDN), 67% NDT (Nutrientes digestíveis totais). Pré-secado de azevém, 40,6% MS, 14,6% proteína bruta, 51,3% FDN e 63,0% NDT. Investir na quantidade e qualidade das forragens com alta qualidade nutricional depende de inúmeros fatores como um planejamento forrageiro adequado, escolha do híbrido, época ideal de plantio, tratos culturais, momento de colheita, confecção da silagem, conservação e boas práticas no descarregamento, acarretando em uma forragem de baixo teor de FDN, alta energia (NDT) que possibilita diminuir a quantidade de grãos na dieta.
A dieta formulada possui 16% proteína bruta na MS, 35,9% FDN na MS e 1,5 Mcal de energia líquida por kg de MS, com 54% de forragem na MS (Tabela-1). Esta dieta possui energia líquida e proteína metabolizável permissível para produção de 32,0 e 31,0 litros de leite por dia, respectivamente. Portanto, não existe limitação de nutrientes. O custo alimentar por vaca foi de R$ 10,21, custo alimentar por litro de leite produzido R$ 0,34 e a receita sobre o custo alimentar R$ 13,59 por vaca. Preço de leite utilizado R$ 0,7934/litro.
A receita sobre o custo alimentar é uma medida grosseira de rentabilidade (IOFC). Os americanos consideram como meta interessante IOFC superior 6,0 dólares por vaca. Em situações de alto custo alimentar e preços de leite baixo da média histórica a meta seria em torno de 5,00 a 5,5 dólares por vaca. Se considerarmos o dólar comercial R$ 1,66, o nosso lucro sobre o custo alimentar predito em dólar seria U$ 8,20, altamente atrativo para produzir leite.
Caso façamos comparações entre fazendas haverá diferenças na receita sobre custo alimentar, devido ao número de lotes de produção, qualidade de forragem, sanidade, dias em leite e potencial genético do rebanho. Outras decisões não relacionadas à composição da dieta podem afetar o desempenho dos animais, qualidade da mistura, precisão nas pesagens dos ingredientes, avaliação do teor de MS das forragens, estocagem, conservação dos alimentos, manejo e conforto animal. Lembre-se nem sempre a comida mais barata é a mais lucrativa.
Em geral, o ambiente econômico atual é atrativo ao produtor de leite, os preços do leite na região seguem firmes, aumento na demanda mundial por lácteos, preço do leite em pó acima de U$ 4.500,00 a tonelada. Entretanto, as cotações do milho e farelo de soja superam o ano 2010 contribuindo para aumento no custo alimentar. Estratégias alimentares dependem do mercado, mas a diversificação de ingredientes, como a utilização de subprodutos fibrosos pode contribuir para redução no custo alimentar nas fazendas, sem que haja queda no desempenho animal. O produtor de leite deve ter cautela quanto ao cenário atual e utilizar indicadores econômicos para avaliar seu negócio sistematicamente.