Henrique C. Junqueira
Responsável pela Unidade de Negócios - Leite
Castrolanda: LEITE: Se não houver surpresas cenário de preços firmes porém não lucros maioresLEITE: Se não houver surpresas cenário de preços firmes porém não lucros maiores
Por Henrique C. Junqueira

A palavra que vem sendo utilizada com maior freqüência nos últimos meses para o mercado de lácteos brasileiro é: Atípico. Por mais que os especialistas desse mercado estudem os seus fundamentos como, clima, preço de insumos, estoques e outros, há sempre surpresas no caminho do produtor. Quem previu que os preços internacionais explodiriam a partir de setembro de 2006? E quem previu que despencariam a partir de julho de 2007 devido a crise internacional do crédito? Isso traz um enorme risco para quem assume a tarefa de escrever sobre o mercado do leite. Este texto aborda de forma resumida os principais fundamentos do mercado de lácteos dos últimos três meses e uma visão para o início de 2011.

Um dos fatores mais relevantes do mercado internacional de lácteos nos últimos meses foi o grande crescimento da produção de leite nos Estados Unidos. Esse comportamento iniciou-se em março e continuou firme até novembro. Os produtores de leite americanos expressam a sua competência sempre que os preços internacionais atigem patamares que viabilizam a exportação dos seus produtos lácteos. O crescimento da ordem de 2% na produção em 2010 recupera o "tempo perdido" que foi o ano de 2009, no qual a produção americana ficou estagnada. Esse é um fator importante porque os Estados Unidos são o maior produtor de leite do mundo, com aproximadamente 87 bilhões de litros por ano. O impacto do crescimento da produção americana de 1,7 bilhões de litros é 20% maior que o impacto do crescimento do Brasil em 5% previsto para 2010. No mês de novembro os preços pagos aos produtores americanos caíram aproximadamente 9%.

Outro fator importante também para o cenário internacional é que o pico de produção da safra 2010 da Oceania já passou. As previsões para o encerramento do ano não são das mais promissoras já que o volume atingido no pico de produção ficou aquém dos prognósticos feitos. No momento há seca na Nova Zelândia que poderá comprometer os últimos meses de safra. Há um ano que os preços das principais "commodities" lácteas estão estáveis no mercado internacional, o leite em pó integral está sendo cotado por volta de US$ 3.500,00 a tonelada e não há fundamento forte para alteração desse preço.

É no Brasil que identificamos nos últimos meses o mencionado comportamento atípico. A mídia chegou inclusive a mencionar uma inversão dos preços pagos aos produtores, mas isso é um exagero. O que foi observado no ano foi um precoce aumento dos preços pagos aos produtores a partir de fevereiro. Infelizmente para a classe produtora o mercado não sustentou os preços uma vez que o valor do leite longa vida no atacado caiu vertiginosamente a partir de abril. O comportamento do preço do leite longa vida foi o responsável pela queda dos preços pagos aos produtores a partir de maio. Maio foi o mês de maiores preços aos produtores de leite.

O leite longa vida ou UHT ainda é o produto lácteo de maior correlação com os preços pagos aos produtores no Brasil. Hoje os preços desse produto são divulgados diariamente pela Confederação Brasileira das Cooperativas de Laticínios (CBCL) em trabalho desenvolvido com o CEPEA. Os preços desse produto mantiveram-se estáveis desde o início de setembro, sendo vendido ao atacado com valores entre R$ 1,60 a R$ 1,65 o litro. Em abril o produto chegou a ser vendido no atacado de São Paulo a R$ 1,84 o litro.

A estabilidade do preço do leite longa vida, a ameaça do "La Niña" à produção da Região Sul do país, o bom desempenho da economia brasileira, o aumento do consumo de lácteos fizeram com que os preços pagos aos produtores ficassem firmes até novembro. Um fator importante que contribuiu para esse fato foi a forte reação do queijo tipo mussarela no mercado. O fato é que os produtores receberam em novembro preços de até 10% acima dos praticados no mesmo mês em 2009. O ano de 2010 será marcado por excelentes preços no primeiro semestre e bons preços no segundo e provavelmente com preço médio de fechamento 9% maior comparativamente.

Os produtos lácteos são ditos elásticos, ou seja, se o poder de compra do consumidor aumenta ele compra mais leite. Não necessariamente leite fluído, mas compra sim queijos diversos , tipo mussarela na pizza, sanduíches, iogurtes, sorvetes, pães industrializados, bolo, biscoito e outros. Há uma enormidade de alimentos nos quais há leite em sua formulação. Um dos pontos determinantes para fazer o prognóstico de 2011é prever o desempenho da economia brasileira no próximo ano? Será que o novo governo mudará a política econômica? Teremos alguma nova crise econômica mundial?

O fato é que não há aparentemente muito espaço no mercado para o crescimento do preço pago aos produtores. Teremos em 2011 um ano desafiador em relação aos custos, os grãos como milho e soja valorizaram e trouxeram um impacto negativo na margem bruta da produção leiteira. Esse fato poderá estancar o crescimento da produção brasileira e mundial em 2011, mas também é fato que a partir de determinados preços há retração no consumo de lácteos, é quando a dona de casa evita a gôndola de refrigerados nos supermercados. Não há como fazer previsões otimistas com o histórico e cenário atual. Se nenhum fundamento trouxer surpresas ao cenário teremos preços firmes, mas não necessariamente lucros maiores. O produtor deve entender de que estamos até bem posicionados em preço e quando isso acontece o maior risco ou tendência é a redução do mesmo.

A visão que passo ao produtor do Pool é que o mesmo deve continuar investindo em seu sistema de produção focando: Aumento da produção, redução dos custos e atendimento das novas tendências de mercado (certificações e proteção ao meio ambiente). Em 2011 uma nova fábrica será inaugurada na região. Os produtores do Pool terão que abastecer duas fábricas próprias, localmente isso é muito bom. Por vários anos as cooperativas que integram o Pool operaram sem fábricas. Os fundamentos de longo prazo para o mercado de leite são ótimos. A população mundial cresce e o consumo por habitante também. Poucos países têm os recursos necessários à produção como o Brasil e a nossa região. Há necessidade de pensar no curto e longo prazo. Cuidar das finanças e preparar-se para a competição de preços e qualidade, principalmente nas novas demandas dos clientes.


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